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Parte 2 [Análise Folclórica] — Decodificando o "Maeyung": O chamanismo coreano e a cultura "Han" por trás do App

Quando a mudang diz «Isso é Maeyung», o drama deixa de ser um thriller tecnológico. Uma mergulho profundo na maldição da malignidade enterrada, o conceito de Han, e por que um celular é o objeto amaldiçoado perfeito.

Na segunda metade de Girigo: Se os Desejos Pudessem Matar, quando Kang Ha-jun tenta analisar o código do app e bate em um beco sem saída lógico, a mudang «Sunshine» pronuncia uma única frase — «Isso é Maeyung.» Esta linha desloca instantaneamente a dimensão da série de um thriller tecnológico para uma profunda obra de terror folclórico. O que exatamente é Maeyung? E como esse recurso narrativo serve como receptáculo para sentimentos culturais únicos da Coreia?

I. O que é Maeyung? Malignidade Desenterrada

Maeyung (매흉) — literalmente «Malignidade Enterrada» — é, dentro da tradição xamânica coreana, uma forma excepcionalmente insidiosa de feitiçaria. Sua essência central reside nos conceitos gêmeos de ocultação e corrosão.

Enterramento físico: Tradicionalmente, o feiticeiro enterrava um objeto ritual — inscrito com os dados pessoais da vítima e misturado com sangue ou restos mortais do falecido — sob o espaço de vida da vítima.

A transformação na série: Em Girigo, esse «espaço» é transmutado em um reino virtual e digital. O objeto ritual fica «enterrado» nas profundezas da arquitetura subjacente do app. Essa transformação simboliza uma verdade nua: mesmo que os tempos mudem, a malícia abrigada no coração humano sempre encontrará um novo recipiente para habitar.

II. A Cultura do «Han» na Coreia: O Combustível da Maldição

Para compreender verdadeiramente a natureza do Maeyung, é preciso primeiro entender o conceito de «Han» dentro da cultura coreana. É uma forma de sofrimento trágico — crônico, reprimido e absolutamente irresolvível.

A personagem Do Hye-ryeong é a origem de toda essa maldição. O bullying escolar e os profundos mal-entendidos que ela suportou — vistos pela lente do xamanismo — a transformaram em um won-gwi (원귀), um fantasma vingativo. O ritual de automutilação sangrento retratado na série era, na realidade, seu ato de apostar sua própria vida para transmutar seu Han acumulado em uma poderosa maldição sobrenatural. Não era meramente um ato de retribuição; era uma expressão de desespero absoluto:

«Já que fui lançada no inferno, todos os outros devem ser arrastados junto comigo.»

III. O Papel da Mudang em 2026

A personagem «Sunshine» — a mudang interpretada por Jeon So-nee — oferece uma perspectiva particularmente fascinante sobre esses eventos. Ela não é mais a figura tradicional vestida com hanbok realizando rituais xamânicos nas profundezas das montanhas; em vez disso, é uma personagem situada no cenário urbano, que até possui uma sensibilidade decididamente moderna.

Isso reflete uma realidade atual dentro da sociedade coreana: mesmo na era da alta tecnologia, as crenças xamânicas permanecem profundamente enraizadas na psique coletiva. Quando a ciência — representada por apps e código — se mostra incapaz de explicar o infortúnio, as pessoas ainda recorrem a forças sobrenaturais em busca de salvação. O arco narrativo em que «Sunshine» confronta o app representa, em essência, uma feroz colisão entre a sensibilidade tradicional e a racionalidade moderna.

IV. A Transmissão de Objetos Amaldiçoados: De Bonecas a Celulares

Antigamente, o ato de «enterrar o infortúnio» exigia um receptáculo físico. Em Girigo, o celular emerge como o meio perfeito para esse propósito. Nossos telefones servem como repositórios de todos os nossos segredos, desejos e conexões sociais.

O conceito de «objetos amaldiçoados digitais» introduzido na série serve, na realidade, como um comentário satírico: nossa dependência de celulares atingiu um nível que se assemelha à «adoração». Quando tocamos em «Concordo» em nossas telas, dentro do contexto do folclore xamânico, é equivalente a carimbar uma impressão ensanguentada em um contrato vinculativo.

O que o Maeyung nos revela

Através do recurso narrativo de «enterrar o infortúnio», Girigo consegue modernizar as antigas lendas xamânicas. Ela transmite ao público que, embora a tecnologia possa evoluir e ser reinventada, a escuridão e os ressentimentos profundos no coração humano transcendem tanto o tempo quanto o espaço. O sucesso da série é, em grande medida, atribuível à sua exploração precisa e incisiva dessas profundas ansiedades culturais.